Respiração: o mecanismo de purificação divino
Respirar é estar vivo, mas vai muito além disso, é também o seu meio de autopurificação e autorregulação emocional
Dalìta Schmöller
3/8/20267 min read
A respiração é um mecanismo fantástico.
Ainda me lembro da primeira vez em que tive contato com a técnica de respiração consciente Rebirthing. Eu morava na Bélgica e havia decidido que meu período sabático havia chegado ao fim. Era hora de retornar ao Brasil e iniciar uma nova profissão, já que a veterinária não fazia mais sentido para mim. Para isso, eu buscava cursos que complementassem os que havia iniciado em Bruxelas.
Foi então que minha irmã comentou que uma amiga havia feito um curso de Rebirthing e estava encantada com o poder da respiração. Ela sugeriu que eu pesquisasse sobre o tema, e assim fiz. Li tudo o que estava disponível na época e confesso que não entendi absolutamente nada.
No auge da minha ignorância, parecia improvável que algo tão simples quanto a respiração pudesse ser tão poderoso. Ainda assim, encontrei um curso, ou melhor, convenci uma pessoa a me dar um curso que coincidisse com a data do meu retorno ao Brasil. Cheguei em uma quarta-feira à noite e iniciei o primeiro módulo no sábado pela manhã.
Entre a inscrição e o início do curso, minha avó paterna quebrou a perna, desenvolveu uma pneumonia e entrou em coma. E eu, que havia ido embora tentando atravessar o luto pela perda do meu pai, me via diante de um novo luto logo na chegada. Eu sentia que minha avó me esperava para poder partir, e isso me apavorava. E se eu desabasse novamente?
Cheguei ao curso de Rebirthing totalmente descrente e sem expectativas. Tinha um medo profundo de demonstrar emoções em público. Acreditava que sentir demais era sinal de fraqueza e temia o julgamento dos outros. Coloquei-me na posição de observadora, tentando reunir informações suficientes para criar algum senso de pertencimento naquele espaço.
Na primeira prática, comecei a respirar, mas nada em mim acreditava que algo realmente profundo pudesse acontecer. Minha mente se esforçava para manter o controle. Eu respirava observando. Sentia o corpo analisando. Havia uma vigilância constante, quase rígida, como se fosse necessário garantir que nada escapasse, que nenhuma emoção atravessasse a fronteira do aceitável. Eu não conseguia relaxar. Queria controlar o que estava sentindo, como havia feito a vida inteira. Só que a respiração não negocia com o controle. Ela o atravessa. E quanto mais eu resistia, mais rígido meu corpo ficava, até que não pude mais sustentar a resistência e apenas me rendi ao que vinha.
Primeiro surgiu uma sensação estranha no corpo. Em seguida, percebi que estava em contato com emoções imaturas do meu primeiro encontro com a morte, a perda do meu avô paterno, quando eu tinha dez anos. Ao olhar para aquilo, vieram as lembranças da confusão que sentia diante da morte e da última vez que o vi com vida no hospital. Fui autorizada a vê-lo porque ele chamava meu nome na UTI, mas quando cheguei ele tentava falar comigo e eu não compreendia. Uma mistura de medo e impotência me envolveu. Lembro de abraçar meu pai, e naquele abraço encontrei proteção e segurança.
Ao pensar em meu pai, fui levada dez anos adiante. Eu tinha vinte anos e revivi a cena, mas agora era ele quem estava no leito. Mais uma vez, o medo e a impotência estavam presentes. Dessa vez, porém, eu não tinha meu pai para me proteger. Era ele quem partia. Lembro de, naquele instante, assumir para mim mesma que estava só e desprotegida. Precisava crescer, amadurecer, seguir adiante. Reviver essa memória me fez chorar e liberar emoções que permaneceram aprisionadas em meu peito por anos.
Então, algo se aquietou dentro de mim. Alcancei um estado de paz. Nesse espaço silencioso, meus guias me trouxeram a compreensão de que estava tudo bem, de que eu conseguiria atravessar a partida da minha avó sem cair em uma nova depressão. Uma semana depois, poucas horas após vê-la em coma no mesmo hospital onde havia me despedido de meu pai e de meu avô, minha avó também partiu. Mas meu peito não se dilacerou. Eu sabia que ela estava em paz. E, pela primeira vez, soube que eu também poderia ficar. A respiração me mostrou isso.
Após esse episódio, entreguei-me ao poder da respiração. Mesmo sem compreender intelectualmente, algo em mim sabia que ali estava o meu caminho.
Comecei a estudar, fazer cursos e, sobretudo, respirar.
Sete anos depois, posso afirmar com absoluta convicção que a respiração é o mecanismo perfeito de Deus para a purificação do corpo, da mente e da alma.
Ao longo desses anos, atendi centenas de pessoas com as mais diversas queixas. A respiração foi a chave que as retirou da cela da culpa, do medo, da mágoa, da raiva e da dor. Um sofrimento sem fim que, em muitos casos, já começava a condenar seus corpos a doenças ferozes ou suas mentes a estados de loucura e pânico que nem mesmo os medicamentos conseguiam conter.
A neurociência nos mostra que a respiração é uma das poucas funções do corpo capazes de acessar voluntariamente o sistema nervoso autônomo. Ao respirar de forma consciente, regulamos o nervo vago, reduzimos a ativação da amígdala cerebral e restauramos a comunicação entre o cérebro emocional e o córtex pré-frontal. Isso devolve ao organismo a sensação de segurança, permitindo que memórias traumáticas sejam integradas, emoções reprimidas sejam processadas e o corpo saia do estado constante de ameaça. Respirar conscientemente não é apenas relaxar. É reorganizar o sistema nervoso e devolver coerência ao funcionamento interno.
Yogananda ensinava que a respiração é o fio invisível que conecta a consciência ao corpo. Para ele, o domínio da respiração conduzia naturalmente ao domínio da mente e à expansão da consciência. O prana, a energia vital que flui através da respiração, era visto como o verdadeiro alimento do ser. Ao aquietar a respiração, aquieta-se a mente. E quando a mente se aquieta, a alma torna-se acessível. A respiração, portanto, não era apenas uma função biológica, mas um caminho direto de retorno a Deus.
Leonard Orr, criador do Rebirthing, descobriu que a respiração consciente e conectada era capaz de acessar registros emocionais profundos, especialmente aqueles ligados ao nascimento e às primeiras experiências de vida. Ele observou que muitos dos padrões de sofrimento humano tinham origem em memórias inconscientes de trauma, abandono e medo da morte. Ao manter a respiração contínua, sem pausas entre a inspiração e a expiração, o corpo entrava em um estado de liberação natural, dissolvendo tensões antigas e crenças limitantes armazenadas no sistema nervoso. Para Orr, a respiração era uma ferramenta de renascimento, capaz de restaurar a confiança básica na vida.
Estados elevados através da respiração
A respiração revela algo essencial: não precisamos de substâncias externas para acessar estados elevados de consciência. O próprio corpo contém o portal. Ao regular o ritmo respiratório, alteramos naturalmente a atividade cerebral, o sistema nervoso e o estado de presença. Estados de expansão, unidade, clareza e transcendência podem emergir de forma orgânica, segura e integrada, sem dependência química e sem ruptura da estrutura psíquica.
Muitas pessoas recorrem a substâncias psicoativas na tentativa de acessar experiências espirituais profundas. No entanto, inúmeros autores, tradições ancestrais e também a ciência moderna apontam que expansões induzidas externamente nem sempre são duradouras e, em alguns casos, podem ser prejudiciais para uma consciência ainda imatura e fortemente identificada com o ego. Stanislav Grof, um dos maiores pesquisadores dos estados ampliados de consciência, demonstrou que a respiração holotrópica é capaz de acessar os mesmos estados profundos que substâncias psicodélicas, porém com maior integração emocional e menor risco psíquico. O que é acessado pela respiração não invade o sistema, ele emerge no ritmo que o organismo consegue sustentar.
A respiração consciente ensina que a verdadeira expansão não é um atalho, mas um retorno ao corpo, ao agora e à inteligência que já habita em nós.
Percebo que tanto a ciência, que hoje desperta para o poder da respiração, quanto esses grandes buscadores que dedicaram suas vidas à liberação de traumas e ao despertar da consciência por meio da respiração, estão corretos em suas observações. A respiração é tudo isso e muito mais. Quanto mais você a utiliza de forma consciente no cotidiano, seja em exercícios simples ou em processos profundos como o Rebirthing e a respiração holotrópica, mais compreende que Deus foi perfeito. Com este sopro de vida, Ele nos entregou também o acesso direto à Fonte que tudo cria, onde sempre podemos encontrar paz, orientação e a certeza do caminho mais íntegro para a evolução da alma.
Nos meus atendimentos e na minha própria vida, a respiração é um dos pilares centrais. O método Breath-out reúne tudo o que estudei e experienciei ao longo dos anos nesse campo. Aqueles que me acompanham recebem continuamente orientações práticas e ensinamentos sobre como aplicar o poder da respiração para viver com mais clareza, equilíbrio emocional e alinhamento interior.





